16 de mai de 2009

O TROCO


Caio Martins

Se amavam de paixão ou apaixonavam de tanto amar, não fazia diferença. Brigaram no meio da rua destrambelhados e do amor se fez bronca tal, que nada viam ou ouviam, senão as vozes ardidas e olhos esbugalhados, palavras ásperas voando feito facas. Intriga da amiga, a loira que não lhe chegava aos pés, quanto a graça e encanto... Não que a tingida quisesse levar o sujeito na mão grande; não queria, mesmo, era vê-la feliz. Era tudo que não era. Veneno daqui, insinuação dali, houvesse falta de defeitos no rapaz e inventaria alguns, contanto de vê-la sorumbática e lamentosa. Na hora, ele percebera os fatos.

Se não era fácil ser mulher de músico, pior era ser músico de uma só mulher. Há muita solidão perdida, na noite. Na noite, tocando trompete, a flauta transversa ou, incisivamente, cantando com voz macia o que melhor havia da veneranda música popular brasileira, a mulherada entrava em transe... ou cio instantâneo, ou sabe-se lá que estado físico e mental as acomete em massa, e ele sabia dosar recursos chegando às raias da excelência. Ela? Dançava, cantava, tomada e comovida até o último neurônio, mas... alerta feito gata de primeira cria. Era, para todos os efeitos, a dona egoísta e possessiva que o levava embora depois da festa.

Saíra da discussão muito injuriado. Entrara num boteco, pálido, respirando na garganta, pedira o indefectível rum jamaicano e ficara um tempo ruminando amarguras, até que mão delicada tocou-lhe o rosto. Era linda, demasiadamente, até. Para quem não se liga com h2o2, poderoso desinfetante usado por morenas envergonhadas para aloirarem, era o sonho absoluto dos adoradores da autêntica morenice. Fora sua gerente numa empresa, empurraram muita pedra ladeira acima por algum tempo. Era amiga, irmã. Veio a idéia. Começou confidenciando sério, meio acabrunhado, em meia hora o riso corria solto.

Sábado seguinte, todo o mulherio e amigos estranhando sua ausência, entra na casa cheia de abraço com aquele atentado ao pudor com uma rosa vermelha nos cabelos negros, blusa transparente, saltos impossíveis e saia justa tão curta que, mais um pouco, seria só cintura. Foi um espanto no salão. Invés de ir-se ao palco onde seus parceiros já preparavam os instrumentos, sentou-se a uma mesinha na beira da pista. Mãozinhas dadas, olhares, gestos de amantes, enamorados, apaixonados, tudo a que tinham direito. Tive de gritar-lhe para que viesse trabalhar. A baixinha? Sumira de cena.

Fim de noite, a morena se fora antes, salão escuro, e ele vê, no canto do palco deserto, a figurinha encostada numa caixa de som. Finge que não viu. Ela vem, braços cruzados sob os seios, passos lentos. Por algum motivo, gerou-lhe apreensão. Não era assim. Havendo o que resolver, era direta, rodava logo a baiana e partia para os finalmente. Sem olhá-lo nos olhos, ela pára bem perto. Lentamente descruza os braços. Respira aliviado ao ver-lhe as mãos sem armas. Abre uma delas e, num gesto tímido, estende-lhe um pingente de ouro e pedra púrpura, ganho no primeiro ano de namoro, como se fossem Ezequiel e Ametista.

- Eu sei quem é ela, vocês são amigos. Você só quis me magoar e magoou muito. Muito mais do que imagina...

Tenta abraçá-la e recebe a mão no peito. Tenta falar e um dedo nos lábios o cala. Último olhar em lágrimas, põe-lhe o pingente no bolso da camisa e sai rapidamente. Da porta, a vê lançar-se aos braços de um homem alto, depois entrarem num carro e partirem. No desespero, chuta a porta, arremessa o precioso trompete no bar, quebra uma mesa e, depois, chora desconsolado.

No carro, riam à vontade. Disse ao homem que fora difícil e quase fracassara, mas, no dia seguinte iria procurá-lo, ele tinha de sofrer um pouquinho para aprender a dar valor a uma mulher enamorada. O primo só retrucou: - Truco!

(imgart: cvm - dama de espadas. ezequiel e ametista, de Lucia Meira)

2 comentários:

  1. O mundo das paixões, desespero, alegria e choro que Caio sabe criar, ou melhor, retratar...

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  2. Figurinha carimbada essa guria. Fez foi muito bem e é outra história em que o sujeito termina comendo na mão e abanando o rabo. Mulher de músico é pagar carma.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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