23 de abr de 2009

BRINQUEDO DE RODA


Caio Martins
Para Ethel.

Não se viam há uma década e, naquela tarde de início de primavera encontraram-se numa esquina. Foi escândalo público. Primeiro o espanto, depois o ar se rarefez, então correram para o abraço entre beijos e lágrimas. Levantou-a no ar, quando pulou-lhe em cima envolvendo-o com pernas e braços. Eram crianças e vizinhos, quando ele partira com a família para a Alemanha.

Viviam apaixonados, ciumentos e possessivos de manhã à noite. Tinham um galo vermelho que se julgava dono dos quintais, os punha a correr toda vez que se escondiam para brincar e, estridente, cantava ante vitórias fenomenais. Ela quase morrera de paixão, na despedida . Depois, ficara estranha, quieta, calada e, a partir de um dado momento, caíra de mão em mão, rolando mais que pedra de rio. Ele não se fixara em mulher alguma, as aceitava por princípio, a todas. Nenhum reencontrara a magia, há tanto tempo perdida, por mais que a perseguissem.

Voltara há dias, percorrera todos os lugares conhecidos e estava desconsolado. Ela, no dia anterior, armara tremendo barraco com um namorado que a deixara toda marcada no pescoço, colo e seios, e o pusera a correr. E andava pela rua sem rumo, corroendo o dia com tristeza, frustração e raiva. Agora estavam ali, completamente embevecidos, mãos dadas na mesa do bar, resgatando reminiscências. Olhos nos olhos, o mundo que se danasse. Ambos na beira do choro e da mais louca felicidade. Era tanta emoção que, acendessem um fósforo, e explodiriam o planeta. Ah!, pensar que quase tinham sido amantes...

- Sabe, eu estava louco apaixonado, mas tinha muito medo de você. Tinha medo de machucar, que era pecado, sei lá! Você era muito louca... Lembra quando ...
- Você foi bobão. Não houve pecado quando tudo era pecado... Eu não tinha o menor receio, nem sentimento de culpa. Que brutalidade, o medo que põem nas crianças... a culpa... Até aquele galo desgraçado... Virou sopa! Posso pedir uma coisa?
- Tudo o que quiser... só não sei se faço! Coitado do galo!
- Você é totozinho da cabeça, mesmo... Você... me deixa fazer como eu quiser? Fica quietinho? Só faz o que eu pedir? Eu sou muito complicada...
- Já foi diferente? Eu é que tinha de fugir, para que não me violentasse... Acho que esqueceu, não foi? A gente estava muito apaixonados.
- Mentira, seu bostinha! Você que era um taradinho que gostava de abusar de menininhas inocentes e puras... Vamos para a minha casa, meu pessoal está fora... nunca levei ninguém na minha toca!

Madrugada entrando, se esparrama sobre o rapaz, enquanto é acariciada mansamente nas costas. Percebem-se as mais leves pulsações, brincam, fuçam cada cavidade, relevância, linha, sinuosidade, poros, pêlos, planícies e brenhas dos corpos bonitos. Tudo muito sem rumo, desprogramado, festa de pele, dedos, línguas, lábios, dentes, pés, braços, pernas, mãos, mucosas tépidas e molhadas, indo de uma candura infantil, nos primeiros afagos, até a vertigem alucinada de fantástico bailado entre soluços e lamentos, risos e doces palavras, palavrões... descobrem então que estão mortos de fome quando uma barriga revoltada ronca, implacável. Enrolado numa toalha, ele frita ovos.

- Tire a toalha. Quero ficar vendo você nu!
- Está louca, Maüschen? Já pensou se saltar um pingo de óleo e me queimar o pinto?
- Você fica uma gracinha, de saia!
- Ich liebe dich! Ich bin Carmen Miranda!

Dá a louca e, cabelos desordenados, sai dançando e rebolando desengonçado pela cozinha, a frigideira com ovos fritos dando-lhe voltas nas mãos, no ar... eis que dois olhos amarelos terminam esbugalhados no chão. Sufocam as gargalhadas para não acordar os vizinhos, tão cúmplices como quando se escondiam para brincar de namorados.

Vai saber de onde, na cidade demencial, um galo ilógico, mas litúrgico, desanda a cantar.

(img: cvm - kemella1999 - trecho de “zero hora, um anjo perdido”.)

2 comentários:

  1. É muito simbolismo junto, cada um remete a níveis diferentes de realidade. Só não entende quem não teve uma apaixonite aguda quando pequena. Quando li a última linha deu uma emoção muito forte.

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  2. Lembranças! Recordações de amores e paixões, presentes, desconhecendo tempo e espaço, como cantou o velho galo. Sempre agradam, como esta, descrita com alma.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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