10 de mar de 2009

ROSAS NÃO FALAM


Caio Martins
Para Cris e Lima, homenageando Cartola, eleito de Orum.

Entrara na área de diagramação meio tímida, assustada com aquele primeiro estágio caído do céu. O diretor de publicações a apresentara ao pessoal em bloco, dizendo seu nome e para que vinha. O chefe de edição a olhara de alto a baixo, com jeitão guloso e aprovativo. Na verdade fora assim com todos, única mulher na sala; menos o sujeitinho atrás do Mac com fones no ouvido, esparramado na cadeira e um palito cafajeste na boca. Ao lado, junto à tela, uma estatuinha preta, de santo, vestida de vermelho e branco.

- Esse aí é o nosso diagramador de arte-final. Tudo acaba aqui! Ô meu: ela vai trabalhar na revisão com a gente! - berrara o chefe.

O sujeitinho tirara um tampão do fone, a fitara nos olhos sem sorrir e dissera um “ôi!” inexpressivo. Pusera o tampão de novo e voltara à tela. Sentiu que era seu oposto desde o início. Ela branca sardenta, loira e grandes olhos azuis, corpão generoso, tímida e solícita. Ele, neguinho encolhido, pixaim rapado a zero, tatuagem tétrica nos braços, olhos apertados e traços duros. Ela, cria de apartamento e descendente de austríacos, finalista de jornalismo. Ele, sobrevivente de cortiço e sem traço nem raça definida, brasileiro... Era respeitado, todavia. Andava mole, jeitão de madraço, tinham cuidado ao falar-lhe pois vinha troco e gozação de graça, rápido feito bombeiro e numa gíria pesada ininteligível. “Puta profissional!” - afirmavam.

No tempo, não se incomodara mais com o olhar morno dos colegas, nem a indiferença do neguinho. Até o dia do churrasco de fim de ano ficaram cada um no seu cada qual. Aí alguém trouxera um violão. Depois de passar por Noel, Bezerra e as velhas-guardas, cantara “As rosas não falam”, de Cartola, e se lhe quebrara alguma coisa por dentro. O medo, talvez. Todavia, quem cantasse as rosas do Cartola daquele jeito só podia estar de bem com Deus... Ou com Xangô, o santo dele. E o mundo revirara, de estalo, em paixão desatinada.

De estalo os olhares cruzaram, azul no preto e vice-versa. Fora assim... Amasso maluco na porta do carro, ninguém dizendo nada, corrida muda para o motel e, no dia seguinte, acordando um olhando o outro com cara de fui eu. Avisara em casa que apareceria só no fim do dia. Ele não tinha a quem dar satisfação. Nunca dera satisfação nem cobrara. Passara muito perto do crime, vivendo no meio, para perder tempo com isso. O palito era para lembrar de quando vivia de sanduíches, a estatuinha, de quem o protegera até de tiro, estoriava.

Era seu contrário. Nunca transgredira e só sabia o que a mídia dizia. Fazia tudo certinho, crucifixo entre os seios, lia e estudava muito, ele só escutava samba e fuçava em informática. Mas juntos, cores contrastando nos folguedos entre lençóis, eram a mesma pele, sangue ardente, sentimentos loucos e a perda total e completa de freios e razão. Era tão forte que ela decidira mudar de estágio, ele de turno. Continuara escutando samba com os fones de ouvido, no turno da noite, o Mac na frente e a estatuinha de Xangô do lado. A galera só sabia deles pelos telefonemas, um de noite: - Nega, cheguei! - e outro de manhãzinha: - Nega, tô indo!

Perguntado numa roda de samba sobre o sumiço, diz:

- É que tô ferrado, tá ligado? É a frô loiraça aí! Essa nega alemoa aí, que amarrô meu santo e quebrô meu barato das parada e agora num tô mais de tôca, na charla barata e na morfa de fina, bicho! Tá sabendo o lero todo dia, manhãzinha, meu? Bota as butuca azul na mira com jeito de safada e diz macio: - Ich liebe dich! - e aí o malandro desatina, meu... Baba geral, perdido até o talo, mano!

Do outro lado da cervejinha, no meio do pagode solto, ela sorri, não diz nada, rosas não falam.

(img: cvm-2008)

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