22 de mar de 2009

PREMEDITAÇÃO

Caio Martins

Ao Mestre Jorge Sader

Quieto no sofá surrado, tenso, ombros travados e doloridos, fixa-se com olhos injetados no alvo à frente. Cada vez que a moça se mexe ou fala, o sismógrafo interno pula ou se arrasta, pára ou desvaira.

No meio de uma garrafa de uísque de doze anos, poderia um avião cair sobre o prédio e seguiria nesse fascínio, pelo outro lado até a eternidade no inferno. Um cinzeiro antigo quase entupido continua recebendo mais porcarias. Irrespiráveis, ar e ambiente do apartamento fechado.

Não sorri. Nada diz. Na mão esquerda, como dizem ser de boa etiqueta, o copo de uísque alterna-se com os cigarros. Na direita, clandestino 38 niquelado carregado. A moça não vê a arma. Segue maneando-se, divertida, frente a basbaque como infinitos, sem pressa, devagar mostrando cada brinquedinho com zelo e, mesmo, desfaçatez. Diz em inglês que o ama, mas que não se mova, por favor. Requintada, não precisa de legendas; as coxas, bunda, seios, lábios e demais acessórios falam mais que palavras.

Aproxima o rosto, língua entre os dentes, meio sorriso e a mão sorrateira entre as pernas. Geme baixinho. Num arranque, simula lacinante orgasmo e começa tudo de novo. Sempre começa tudo de novo. Não toca na ereção incontrolável, numa mão o copo, noutra a arma. Ela não percebe a tensão dolorosa, concentra-se em ser fêmea no cio, vira, mexe, remexe, escolhe os ângulos mais favoráveis para toda sorte de obscenidades. Já vira esse filme infinitas vezes, obviamente igual, mas sempre diferente.

Aí, numa fração de segundo, tudo se transforma. A mão, pesada, aperta a coronha mas o indicador ainda permanece fora do gatilho. Por instinto a mulher percebe uma ameaça, os olhos molhados se ampliam, cobre-se precipitadamente com um toalhão azul, recua para o canto da cama gritando que não e não... Não é um homem, é um monstro assassino que lhe vem em cima. Polegar armando o cão, aponta com perícia, contém a respiração. Ela grita. Ele espera o momento exato.

O indicador entra no guarda-mato, espreme o gatilho suavemente. As molas, peças, o trinquete, o estalo, a agulha, a espoleta, fogo a quase dois mil graus, a violenta expansão de gases, o projétil cortando o curto espaço a uns trezentos metros por segundo... Direto na cabeça... Silêncio... Cheiro de nitratos no ar superando o dos cigarros. Paralisado, ouve com atenção e espera não ter acordado vizinhos. Respira aliviado, por fim. Não há telefonemas ou sirene de polícia. A cidade dorme, indiferente.

Toma novo e longo gole de uísque, contempla o estrago. A ereção se fora, ri de si mesmo sem lamentar-se, bêbado e relaxado. Abre a janela e aspira o ar já poluído da madrugada. Volta-se ao cenário, joga o 38 no sofá, espreguiça-se lentamente e se diz, solene e admirado:

- 'Táquepariu...! Zerei o maluco de merda!

Horas depois, mal acorda, sai para comprar nova TV.

(imgarte: cvm - wiki - lucienne2009)

5 comentários:

  1. Circe (Manduca)28/3/09 20:27

    Putz! Já ví um cara sebento, fedido e horroroso e a coitadinha da sem-vergonha levando um tiro na cara... ôrra, Caio, seus finais são f... mesmo...

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  2. Realmente, um estilo diferente. Mas legal. Como sempre, a descrição munuciosa dos sentimentos, ações, reações. O mais interessante ficou por conta do sentido, significado, resultado... Dá vazão a algumas interpretações: ou o protagonista sonhou, ou bebeu e viajou na sensibilização de seus desejos frente a cenas apimentadas numa televisão antiga. O tiro teria como alvo a imagem da mulher, de reais apenas cores, gestos e o medo fazendo parte da imaginação do cara com intuito de dominar. São alguns minutos de poder. Tanto que a mulher, na imagem, está em segundo plano. O que tange a cena é o revólver, símbolo da explosão, força, precisão. Sequência ordinária "no sentido da ordem" masculina. Enfim, deu pra ver a cena... Gostei.
    Beijo.

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  3. Há várias opções. O homem viu algo que não lhe agradou, ou fato, ou cena, ou mulher. Poderia estar ou não embriagado. Mas o final é certo. Ele atirou mesmo na televisão.

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  4. Tem que ler direito, acho que o maluco esperou aparecer um cara que partiu pra cima da safada no filme e mandou o dedo nele e não nela e mandou a tv pras cucuias. Por isso que chama Premeditação, diz que o filme já era conhecido e o doidão diz que mandou O CARA pro saco. Tá todo mundo viajando, meu!!

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  5. Célia Elman3/4/09 04:37

    A Leca mostrou indiretamente outro fato mais que freudiano, em vez de ter um orgasmo (ele não se toca) o "maluco" dá um tiro, coisa muito simbólica e realmente representando o fator masculino, para salvar a mulher ideal. O segredo das coisas que o autor escreveu aqui está nos símbolos e nas entrelinhas, não é direto e aparente como no caso da Mulher do Soldado.

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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