25 de mar de 2009

A EXORCISTA


Caio Martins

Rola pra cá, rola pra lá, acabou sentada no pedaço da cama que lhe cabia, abraçada ao travesseiro. Ao lado, o fulano da vez roncava solto, contente feito rato no lixo. Era bonito, jovem e, principalmente, de outra profissão. De fora, chegava o som denso e pesado da cidade em madrugada fria de outono. O que incomodava eram seus demônios, lembranças de outro fulano, outra madrugada de outono, outros tempos.

- Puta que pariu!... – murmurou baixinho. Como podia não sair da cabeça, aparecer nos momentos menos adequados, estragar a festa na cama feito um Vadinho qualquer assombrando quem não era Dona Flor, nem tinha dois maridos? Entrar-lhe na razão e dar palpites quando lia um livro, via um filme, tomava decisões no trabalho, até quando se comparava às vaidades siliconadas que ameaçavam seus territórios?

Poder, não podia, mas a permanência fazia-se insuportável. Era na hora de trabalhar um tema, de meter-se no trânsito, de vestir-se e, pior, nos momentos íntimos com o fulano da vez. Achava-se tranquila, quanto a sexo. Sem essa de sentir-se invadida, ou usada: gostava, não tentava provar nada, era só uma forma, dentre infinitas, de receber e dar carinho. Achava bom, mesmo que o da vez fosse meio apressadinho.

O de outrora afirmara certa vez, fundamentalista, que o homem sábio não se preocupa com o próprio prazer por saber que, desatado o da mulher, o dele viria normalmente. – Cafajeste...! No mínimo, aprendeu na zona! – pensou. O da vez, até que estava aprendendo com ela, mas queria que fosse para ela (Lá estava o intruso novamente...). E, além de apressado, era metódico demais, suave demais. O outro? - Capeta! Safado! Sem vergonha! ...

Gelada e sentindo crescer a bronca contra o nó cego molhado, deu um safanão no da vez, arrancou o cobertor, enrolou-se e saiu do quarto batendo a porta. Pegou o telefone, digitou no capricho. Dois toques e a voz inconfundível, cheia de rabugice de gênio interrompido em hora imprópria, rosnou “Alô!” do outro lado. Exigira-lhe, há tempos, que não mais o procurasse se nada quisesse com ele, que não lhe alimentasse ilusões... jornalista cretino! Sacudindo os demônios, respirou fundo, o cobertor caindo e a nudez detonando o frio da sala:

- Palhaço! Cafajeste! Safado! Larga do meu pé, seu fiadaputa!

Deixando dois fulanos catatônicos, perplexos e apatetados na madrugada fria, bateu o aparelho, catou a coberta e foi dormir intrépida no sofá, apaziguada e feliz feito gata que comeu todo o creme.

(img: "mulher, imagens e poemas" - perfil&arte .)

4 comentários:

  1. Guilherme Jr.28/3/09 20:16

    Gostar de crítica é sinal de vontade de aprender e perfazer-se, e é um ótimo sinal. Mas ia falar da Exorcista, que realmente conseguiu sacudir seus demônios interiores. A narrativa exige excepcional talento se não descrevemos o personagem (é negra, loira, oriental, morena?)e essa é uma característica sua, mostrada em outros textos, nos quais vemos a cena. Mas como não gosta de elogio, é, junto com a "Premeditação" uma das melhores porcarias que li ultimamente...

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  2. Cris Dunch30/3/09 22:38

    Tipicamente feminino tepemêutico... Mas isso não ocorre só com as mulheres, que somos mais sensíveis e, digamos, mais graciosas... Com vocês pode acontecer como o maluco da crônica anterior. Aliás existe alguma ligação muito forte entre elas, uma liga desancando o "intruso" e o outro dispara na televisão. Imagino o barulho que essas personagens devem fazer na sua cabeça. Bjs.

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  3. A longa experiência de Caio faz com que saiba abordar com segurança assuntos difícéis. Como este, por exemplo. Abraços.

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  4. Barbosa Lira1/4/09 17:48

    É jogo duro, quando a gente vive muito tempo com alguém mistura tanto as coisas que depois não tem jeito de limpar os arquivos temporários e desfragmentar o HD... Essa história tem um cheiro de fato real danado mas a mensagem é muito clara sobre o que dá mexer com mulher geniosa e sobre que amor é o que fica. Contaminados para sempre...

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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