3 de mar de 2009

A CORUJA

Caio Martins

Para Cristina e os que já viveram um grande amor, em tempos de fúria.

Na mente, a figura da coruja de madeira. Dele, não tinha mais idéia. Cidade infeliz... Barulho infernal, ar irrespirável, pessoas intratáveis, a cada passo a expectativa de tragédia. Pegou a Paulista, quebrou para a Bela Vista, determinada e repetindo que tinha de ser forte. Lá estava, no mesmo lugar.

Antes, chamava-se Cauã. A música latino-americana imperara ali, da emoção do tango à sensualidade da salsa, do candombe à cúmbia; rolaram paixões voluteando do sórdido ao sublime, com trilha sonora latino-americana, empanadas e vinho tinto. Agora, era um tugúrio pós-modernoso grampeado a som dilacerante, tribos estranhas espetadas de parafusos e rebites, tatuagens e cara de mula. Ali valia tudo. Cara limpa, roupa simples, tênis preto de corrida, pelas dúvidas. Era boa, nisso. Entrou trombando alienígenas irados, o som rasgando os tímpanos.

Esquivando-se, empurrando, fintando, chegou ao balcão. Lá estava a figura. Cabelos ralos prateando, a barba desordenada, faixa roxa na testa rutilante pela luz negra, virginal blazer branco, camisa negra e rubra gravata borboleta. Conseguiu sentar-se numa banqueta. Impecável, ele passou o pano na fórmica (antes era um tampo de jatobá) e perguntou-lhe: - Senhorita? Cravou os olhos negros nos olhos claros ilhados por rugas de todo tipo. Não sabia o que dizer, vinte anos passados. Viu-lhe a respiração sustada e o ar de espanto. Sumira no mundo há tanto tempo que nem pensara em ser reconhecida assim, de pronto. O barulho eletrônico, as personagens insólitas das tribos, tudo parou, sumiu. A memória do corpo voltou atrevida e impertinente. Passou a mão entre os seios e desceu até as coxas por reflexo. Cabelos curtos, os sacudiu como se longos fossem, gesto atávico de outrora. Finalmente, ele respirou fundo, pôs a mão sobre os olhos e, então, abriu os dedos devagarinho e olhou-a pelo vão:

- Você?
Fez que sim com a cabeça. Sem sorrir. Manteve o olhar firme. Viera buscá-lo. Se não o encontrasse, roubaria a coruja. Tinha de ser forte, não voltaria para a noite, não cantaria mais “O bêbado e a equilibrista” tentando superar Elis, não cederia à magia das madrugadas, porque tudo isso se fora. Ficaram, anacrônicos, assim pelo tempo de uma vida. Por fim, estendeu-lhe a mão, a palma voltada para cima, abaixo de seu queixo. Pôde rir. Era assim que ela fazia com os vira-latas da rua, que jamais a mordiam. Sorriu levemente em resposta, ao contato da pele. O outro garçom, cravado de metais na cara surrealista, assumiu o bar. Ocorria alguma coisa muito doida, ali.

- Vim buscar você! Não me pergunte como o encontrei.
- Não vou. Você sumiu e eu pirei, bichinho! Me ferrei de verde-amarelo! Nunca mais escrevi um verso, deixei a música, acabei aqui maluco depois de maluco, onda depois de onda, fiquei feito um balcão, cadeira, mesa... Eu e a coruja do Cubano. Mostrou-lhe, na prateleira mais alta, a escultura de madeira. Sem vacilar, ela subiu no balcão, pegou a peça. Estava empoeirada, com pesada patina de tudo quando é droga e bafo de onça de vinte anos.
- Vim buscar você! Lembra do que queria? Lembra do que me dizia ser seu sonho mais terno? Existe, ouviu? E você ficou aqui por saber que era o único lugar em que eu poderia achar. E eu achei. E você vem embora comigo. E a coruja!
- Você é maluca! Essa é a minha vida! E vem agora, do nada, depois de um século, me atazanar? E querendo que eu deixe...
- Cala a boca! Você tem a única coisa que restou. Esta coruja, está vendo? Está sozinho!
- Sai fora, menina! Estou muito velho para você... Parece ter vinte anos...
- Tenho o dobro, animal! E eu nunca deixei de amar você, entendeu? Só não aguentei mais ser mulher de poeta e músico noite após noite, o lanchinho da vez. Tenho uma pousada, na serra, lembra do que queria? Ainda quer?
- Você pirou de vez? Eu ficando careca, cego de um olho, meio banguela, a máquina travando? Não sei fazer mais nada, só servir balcão para galera adoidada. Já passei da garantia, moça, do prazo de validade... Logo viro comida de minhoca... Nem sei mais se dou conta...
- Cala a boca! E não vem com essa de morrer, não. Vaso ruim não quebra.Do resto, se ainda tem dedo e língua, serve! Palhaço! Você sabe qual o amor que fica... E tem mais: tenho um cavalo e uma charretinha. Dá para andar devagarinho, pensando nas coisas da vida... Como você queria...

Silêncio. Pesado, denso, olhos claros nos olhos negro, chorosos, a memória dos corpos insistindo, frenética. Ele baixou a cabeça, a sacudi-la lentamente de um lado para outro. Depois, tirou a faixa da testa, a borboleta e sorriu largo com todas as rugas, cicatrizes de inconfessáveis batalhas, os braços abertos, a lágrima rolando na barba e caindo no tampo de fórmica.

- ‘tá bem. Cata a coruja! Então, eu vou... E veio o beijo. Demorado, sofrido, as mãos viajando, os corpos espremidos na ânsia incontida, e um silêncio absurdo, cada um das tribos extasiado, até irromperem num grito crescente de guerra.

(img: coruja02 - márcia sanchez luz/2011)


Um comentário:

  1. Ambiente duvidoso, caras estranhas, balcão decadente... Mas sempre existe um refúgio, uma casa na serra, talvez.
    Tudo volta como foi. Volta mesmo?
    Às vezes sim...
    Grande Caio, aquele abraço.
    Jorge

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Na busca da excelência aprende-se mais com os inimigos que com os amigos. Estes festejam todas nossas besteiras e involuímos. Aqueles, criticam até nossos melhores acertos e nos superamos.

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