15 de dez de 2009

PENSÃO DA ZULMIRA


Caio Martins.










(img: cvm - jaquieO3A - 2001)

Zulmira ficou prenha
nem bem saiu de menina...
Botada que foi na rua
virou-se pelas esquinas.

Virou-se de madrugada
juntou cacarecos do chão
levando em cima o filho
virou dona de pensão.

De dia enche a barriga
de bandos de comensais
de noite dorme encolhida
suspirando antigos áis.

Tem olhos de galardia
tem jeito de comichão
todo o resto ficou velho
embora diga que não.

Cozinha, lava e passa
diz sempre que não dá mais
se remexe cheia de dengues
produz cenas teatrais.

Manda à puta que os pariu
diz pencas de palavrões,
na desforra grita sempre
que maluca é o cú da mãe.

Quando lhe disse, porém,
da minha partida tão perto
botou-me seus olhos d’água
botou flores em meu quarto.

Não mais cobrou a comida
chorou de se consumir.
Foi a última inocência
que me restou no Brasil.

(Pensão da Zulmira - 23/06/1987)


12 de dez de 2009

QUANDO SÃO PAULO CHORA


Caio Martins

Ao poeta Luiz de Miranda








(img: uísque en "las brujas" - fabian perez.)

Deste céu de São Paulo
de estrelas canceladas
caem lágrimas de ácidos.

Num soturno bar oculto
me confronto com o Poeta.

Comovidos,
estampamos na atitude
duas décadas ausentes
de encarniçado pelear
armas e palavras.

Luiz Miranda
vento pampeiro, ciranda
saudando, querendo
salvar o mundo.

Da natureza desolada
desfolhada
esfolada
a pó, resíduos químicos
fumaça de autos
e autômatos
cinzas
de um sonho impretérito
de cimento, vidro e aço
deste inseto canceroso
que chamam cidade
caem
sobre tuas profecias
lágrimas de ácido.

Com que coragem, irmão
lançastes tuas poesias ao trabalho...

Tiveras, talvez, a ventura
de ver teus versos repartidos
“entre vestidos, calcinhas
e sapatos...”

Na tua órbita azul de planetas
na poeira azul de sóis dos anos
não sabes mais amar o transitório,
matéria do meu canto.

E a vida, ávida
atrás de um copo, maneios
das mocinhas ansiosas
te faz gestos obscenos,
te comprime
qual vagina angustiada
de prostituta paulistana
corrosiva
ácida
azul...

(Pensão da Zulmira - 01/07/1987.)


10 de dez de 2009

AQUARELA

Caio Martins.
















(img: cvm - laura -1999)
 


Desenho-te em tintas fortes
e percorro traço a traço
teu corpo inexplicável
de fêmea, flor, formas
frágeis transparências.

E vens, tão nua espalhas
pincéis, palhetas, potes
telas, trapos, imagens
me desenhas insensata
numa imensa confusão
de pernas e bocas e abraços...

É quando, quase sem querer
gravas tua dor na minha pele
recebes meu murmúrio entre teus seios,
nada mais que um homem
nada além de uma mulher.

(em "mulher - imagens e poemas" - 1999 - fundação pró-memória.)

4 de dez de 2009

APARÊNCIAS


Caio Martins

Saiu do “jeans” com certa relutância. Tirou a blusa e olhou-se no espelho: ridícula! Meteram-lhe um penteado lambido e colado, porém não havia mais tempo de soltar os cabelos negros, em minutos viriam buscá-la. Vestiu um tomara que caia longo, azul profundo pespontado de rococós pretos, uns pontilhados metálicos e maldita armação de arame no peito. Os pobres seios ficariam espremidos numa fôrma mais parecida com quilha de barco, molde de concreto, apertada para segurar o peso do resto do toldo...

Enquanto se paramentava, viu a tia a observá-la. Perguntou “que foi” só com um gesto de cabeça. Disse-lhe que se havia transformado numa linda mulher, a patinha feia de outrora. Observou-se ao espelho e detestou o que viu. A roupa, alugada, pesava e tolhia-lhe os movimentos. Mas, era madrinha num casamento, não podia destoar das outras mulheres da família, excitadas com o “glamour” a prazo fixo, de eras passadas. Não havia, ali, condições de discutir. Deixara-se levar.

Percebeu claramente nos olhos do marido, elegante em terno próprio, o desgosto e desapontamento, mas disse-lhe que estava linda... Não sabia mentir. Chamou-o de babaca, pôs brincos e colar de vidro e resistiu firmemente à vontade de tirar tudo, meter-se nos velhos “jeans”, tênis e camiseta desbotada. Retocou a maquilagem, respirou fundo e imperou: - Vamos embora! - Acrescentaria “seu cretino”, porém reservou-se. Na saída, o cão latiu-lhe. Parecia estranhar, inconformado.

Na festa portou-se com sobriedade, riu, brincou e elogiou, diplomática, os torpes manequins da metade do século passado em que suas amigas e primas se transformaram, radiantes; dançou linda valsa muda com o marido e passou o tempo puxando a armadura dos seios para cima. Ao menos, os sapatos eram seus e conheciam-lhe os pés, não a torturaram muito. Estava tensa. Aquela farsa não lhe correspondia, porém alguma coisa mudara. Ela mudara, os olhares ao redor também.

Algo como eletricidade percorreu-lhe o corpo. Via as pessoas como estranhos, surreais, e a todos conhecia desde criança. Farsa... jogavam aristocrático papel, de pretensas damas e cavalheiros que não eram, eram singelos. Simulavam outro mundo, universo, planeta, não sabia... Pegou-se numa profunda tristeza, na volta. Despiu-se agitada, dobrou a fantasia cuidadosamente, meteu-se no chuveiro e suspirou com alívio, talvez o maior que sentira na vida. Havia um cheiro bom de café, ao sair enrolada em toalhas.

Ainda de gravata não a olhou, despejando água quase fervente no coador de algodão. Há muito tempo ele não fazia café. O cão o observava, atento; igualmente a ignorou. Veio mansinha e abraçou o homem por trás, com ternura. Um olhar e o bicho saiu, de má vontade. Feito o café, ele voltou-se, percorrendo-lhe rosto e corpo com um olhar irônico. Deixou as toalhas caírem. Foi ao beijo, carícias, toques e abraços com vontade, e começou a rir: ridículo, o espetáculo. Ela nua, ele emperiquitado, as xícaras muito antigas, tempos da avó.

- Ôi! Que bom, ter você de volta... Ainda me ama?
- Não sei... Foi pior você, com sua gravata cafona... E você, me ama?
- Vai saber! Quando passar o susto, lhe digo... “princesa”!
- Você é um canalha... tinha que me impedir... “princesa” é a mãe! Tire essa porcaria!

Rompidas as aparências perceberam, ao menos no momento, a simplicidade mágica das coisas como elas são, na linguagem cúmplice dos corpos. Mesmo se com prazo determinado de uso, como um traje alugado.

(img: cvm - trajes a rigor)

18 de nov de 2009

TIRO NO PEITO


Caio Martins.

(Despedida de São Paulo - 11/07/1987)











(img: estação júlio prestes - scrappercity)

A cada dia
me despeço um pouco de ti,
lento tiro no peito.

O copo até a boca
teme a gota derradeira.
O corpo do poeta
te percorre, lento
a pé. A passo
percorro teu espaço
num carinho direto
e orbital.

A cada sol
a cada rua
madrugadas
o corpo até a boca
teme a gota derradeira.

O copo até a boca
e meto-lhe o dedo adentro.

Despeço-me de São Paulo
aos poucos, lágrima
escorrendo devagar no vinho
espraiando
nos vincos acres
da boca amarga.

Aqui
não vendi meus versos nas esquinas
não os pendurei nas quinas
de prateleiras e vitrais...
Bati-me a bala, pancada, palavras
ideais...

O nó na garganta
a cabeça oca
passo por estas ruas infelizes
desta cidade sortílega
e infernal.

Profissional de despedidas
vou cada dia um pouco
sem rancores ou revoltas.

A cidade entorna o copo, teatral.

Ah! Como te amo, cidade prostituta
ladra, megera dissoluta
meretriz astuta
marafona demencial...

O copo entornado
na camisa branca
é, a cada dia esvaecente
tua carícia indecente
rubra, despudorada, sem jeito.

A cada dia pungente
é mais um tiro no peito...

13 de nov de 2009

CAMINHOS


Caio Martins.

Dormia, entregue inerme, empapado de suor. Vinda da ducha, ajoelhou-se ao lado mergulhada no calor intenso do sótão, cama larga e lençóis de algodão cru. Prendeu os cabelos molhados, respirou fundo e observou o homem. Na testa, entrada dos cabelos, larga cicatriz muito antiga se mostrava quase nada, no lusco-fusco, azuis cortinas leves endelicando um meio-de-tarde ardido. Intrigou-se. Outras, supercílio esquerdo, lábio superior, corte no queixo, traço na têmpora, a forma de uma moeda perto da orelha. Intrigou-se ainda mais.

Viu-se, fascinada, seguindo as trilhas: contou mais de cem marcas, pequenas, grandes, lineares, disformes, enfim, até os pés, escrevia-se uma história e estórias que lhe eram desconhecidas. Tanto fez que ele resmungou e virou-se, de bruços. E, nada. Não tinha cicatrizes pelas costas, salvo uma redonda e dura, seguida de um traço fino comprido como seu indicador. Tiro? Saída. Na frente, certamente algumas eram de bala, outras pareciam faca; aquele sobrevivente metera-se, trombando de frente, em violências.

Imaginação solta, se diz que aquele não era homem de fugir. Gostou do corpo, de rosto feio. Talhado a cinzel, traços duros, barba densa e áspera, início de calvície avançando e, riu-se, orelhas de abano. Orelhudo. Sentiu-lhe o cheiro: entre cavalo e mel. Avaliou-lhe os músculos. Poderia, quisesse, submetê-la com uma só mão. Grandes, pesadas, grossas, grandes veias no dorso e subindo pelos braços. Um animal saudável... Porém, a tratara com delicadeza e suavidade, sem pressa e dissolvendo-lhe a ansiedade. Só a conduzira. Dança.

Estirou-se ao lado e, apoiada no cotovelo, seguiu bisbilhotando. Como que se comandado, virou-se de costas, esparramando pernas e braços. Sentiu-se coibida, pouco, riu-se nervosa, culpa boba logo desaparecida, nunca tivera a oportunidade de ver um homem assim à vontade, escancarado. No bar disseram-lhe, apresentando, que era um chato maravilhoso, calado e sóbrio, em fase de recuperação de violenta dor de corno por separação, recente e acidentada, de mulher louca. Ela também, de um cafajeste. Apenas lhe dissera: “-Venha!” - e fora.

Levou susto, dando com olhar intrigado e meio sorriso. Perguntou sobre as cicatrizes. O rosto suado endureceu ligeiramente; depois, vencido e sem saída, disse-lhe que era do ofício de caçar e prender. Noite adentro, depois de um jantarzinho caprichado de peixe, contou-lhe o caso de cada uma. Madrugada, e foram ao mar. Matara, quase morrera, vezes. Disse-lhe que não tinha marcas nas costas. Respondeu que entre morrer fugindo ou lutando, preferia a segunda. Perguntou se as cicatrizes, marcas do caminho da vida, doíam.

- Não! Só as de dentro... às vezes muito forte...
- Comigo também... Você é um homem triste.
- Não! Só não temos razão de rir. Acho que andamos bem machucados...
- Acha que poderia me amar?
- Acha que poderia ser minha amiga?

No silêncio de cortar com serra da volta, a mulher ensandecida surgiu-lhes, assombrando, na frente. Na mão a arma; girou-a no ar como se nada, pela primeira vez na vida deu as costas, protegendo, recebeu a carga de tiros. Fugiu, a louca. Ficou em estado de choque. Não se deu conta das pessoas, viatura, ambulância, confusão. Só foi. Nada soube explicar. Tempos depois, caminhos da mesma praia, quebrada por dentro, murmurou vezes, sem lágrimas:

“- Meu amigo!”.


3 de nov de 2009

O DIA


Caio Martins










(img: cvm-mesa de bar - laura123)

Como se hoje não fosse
um dia qualquer
o dia roeu suas engrenagens;
a Moça, com seu melhor sorriso,
mastigou as reticências
e não saí inteiro do outro lado.

Não fosse um dia qualquer
mas, O DIA...
repetição do mesmo pânico,
a mesma angústia, síndrome
de um massacre.

Nada valeu:
preces, cânticos
patuá, guia, orixá...

No consolo de uma refeição dura
na ridícula mesa impura
dum restaurante no fim do mundo
o coração rateou, dolorido.

(Hemorróidas nas coronárias?)

Após o susto, o estupor
o sufoco, grapa añeja
um copo de chope e a comida insossa
restou-me a certeza de que O Dia
não seria hoje,
como será algures, todavia...

Desta vez, Moça,
por mais bela e irresistível
consegui enganar-te! Deixei-te
(Que cafajeste!)
de mãos vazias...

- Até um dia!

Resistencia, 11/12/1987
Chaco Argentino.
Bar “La Vieja Esquina”.

27 de out de 2009

SEGREDOS


Caio Martins










(img: cvm - leca-tela13- em "mulheres, imagens e poemas"/98)

Tens ar indefeso, indefinível
nem de mulher, nem de criança
e guardas segredos impossíveis
que os não entende a própria natureza.

E se, incauto, me lanço em tuas trilhas
- indecifradas trajetórias sem retorno -
telúrica força me aterra
porém, por paixão, não retrocedo...

E me retens como se fosses dona
- por mais que eu esperneie, e bata, e grite -
entre troncos, frutas e sementes
por saberes que sou teus descaminhos.

Conheço teu poder e tuas manhas
e mesmo se custando uma existência
só faço ceder à tua magia
deslumbrado ante tantos brinquedinhos...

12 de out de 2009

EXÍLIOS


Caio Martins

Para Maria Augusta - (Buenos Aires/1974)

Atrás, um exército, e dos lados, mata por cima. Aquela serra era, todavia ruim e trancada, léguas de mato menos inimigo que tantos tais que vira. Do grupo de besta de cidade metido em coisa de armas, salvava ninguém. Gabirus. Um me desafiava, passou bala perto da orelha, cismei. Vi que, mais uma, aquele estava morto. Ajeitei defesas, mamente, eu. A moça me tinha dito, séria, as tramas de levar-me para o bando deles, na sombra.

Nem sabia, desgostei profundo. Asco. Não cheiravam nem fediam.
Daí agradeci, ela estava com uma blusa aberta, mostrando um seio pequeno, gostoso de se brincar com ele; levei a mão, veio, arisco, tapa na cara, jaguatirica. Seguiu falando como se nada, a cara ardia - eitcha! - deslumbre que tinha pela moça; inteira. Nesse dia, já no terminar dos vam’bora, a gente caminhava passo a passo, serra acima, oscilando debaixo de fuzil e das mochilas. Pesadas, estavam. Muito arquejava demais, ela, que era coragem que se me esvaía. Derroteiros. Peleja alheia.

As correias entravam fundo nos ombros morenos, as pernas tremiam a cada passo, então parei - que a gente era bengala dos cegos - sem dizer nada arranquei-lhe a mochila, passei para mim, peso de mula de tropa. Ela falou só com os olhos. Fomos subindo, subindo, ela atrás de mim com as armas, empurrando quando eu pedia, a pendente aquela judiava, descaminhos. Cantava na cabeça para Ossãnhim, nenhum pé se perdia. Chegamos, enfim, onde era o ponto de descanso, numa beira de serra danada de funda; lá em cima, um ar que ardia. Ela ajeitou o mochilão, eu fiquei sentado, respirando fundo, fungando bufado. Todo o corpo um formigueiro, eletricidade, onçado. Chegaram, os assonsados.

Ela arrumou minha rede, pedi no chão, desarrumou, fez a cama dela colada. Aí o do comando arengou sobre tarefas, elogiou a vanguarda, ela e eu, me nomeou chefe de operações para o dia seguinte. Pedi, num particular, que não. Que já estava tudo no fim, fuga do cerco, que não começasse de novo então, incomodasse com besteiras, que não valia a pena, que a situação não dava para mais, que melhor assim, de pau-mandado, no cabresto, fazendo direito, mas não mandador, capataz sem autoridade de gente sem lei que não cidades. Adiantou nada. O caboclo estava trembleque nas pernas, injuriado: queria bicho do mato para garantir a fuga. Eu.

Daí, enfezado e armando desastres, deitei, antes passei na queda d’água para escorrer cansaço. E depois de tanto tempo - Eta! banho gelado da gota serena! - fiquei num cheiro bom de limpo e lavado; até peguei navalha e cortei barba, no escuro do lusco-fusco do pé da noite, tivesse uma água de barbear de cheiro, ficaria bom demais. Deitando, virei para o lado de lá do canto dela. Daí que depois da guarda, madrugadinhas, veio, e enveredou na minha lona. Chão, folhas debaixo.

Veio... Disparou meu coração tão forte que parecia que o mundo ouvia. Cheirava a sabonete, perfume de mato, cheirava a mulher nos aprontes, cheirava! Orvalhos... Foi uma eternidade muito devagarinha, aquela. Sem susto, cada um sabia do outro desde sempre, a gente era uma coisa que mal se movia. Chorou muda, dentes fundo no meu ombro, que não ouvissem. Clandestinos. Mundão errado, dentro de cada um do resto vivia uma violência pantanosa, como se tudo o que era sentido de vida atolasse, ali. Para mim, despenava, boi de guia. Uma só vez tanta ternura, definitiva, e nunca mais? Assim?

Zero nos prazos, pé no mundo, decidi que não voltaria à guerra. Não mais soube. Cada um com sua saga, tercei ferros, forçado, em outras terras sem matas, serras, ela. Ficou na cicatriz no ombro, no gosto e cheiro moreno, nos grotões das memórias tontas - tantas demais - delicadezas na ressaca de entreveros, na dúvida de ter pego - únicos hora e tempo certos - na serra, a senda errada da vida, ela para outros lados. Não mais. Exílios...

(img: cvm-maciçorubi /H52- trecho de “Anti-horário” - 1976 - RBI)


8 de out de 2009

ELEGIA MELANCÓLICA


Caio Martins










(img: cvm - sucatas - IRFMatarazzo.)

Não sabes inventar flores.
Apenas existe em ti
a certeza de carregar absurdos
diante destas interrogações todas.

Máscaras grotescas te espiam
dançando em cima do muro.

Tocar violão, ler jornal
andar na rua gritando
música de carnaval...
Adianta, tudo isso?

Mistérios sorridentes
acenam a cada papel que o vento leva.

Pois que leve então o vento
todas as revoltas, todas as violências
que deixares escritas com fel.

Não chegarás a viver os tempos
onde não haja mais negócios
sempre negócios, amigos à parte.

Não chegarás a viver o tempo
de sentar na rua e cantar
por gosto, bobeira, vontade.

Dentre poucas coisas
(complexos, medos
traumas, desejos
teu relógio e a certeza da morte)
carregas em ti a certeza
de não saber inventar flores...

Tudo o mais não é impossível.

26 de set de 2009

CHAMAS


Caio Martins
Para a escultora Maria Karini











(img:cvm - maria karini4/1998 - em "mulher, imagens e poemas")

Estilhaçar
teus cenários de concreto e aço
e perder-me sem misericórdias
no emaranhado de teus traços.

Na languidez fatal
imortal de teu abraço
denso, intenso, teu
olhar de susto e salto pronto,
entranhado
na confusão de teus apelos
pelos, cabelos, atropelos
e confrontos.

Daí, deslizar matreiro
por fendas de tuas esculturas
na contramão de teus sinais
vermelhos, em painéis
de pedras, bronze, metais
dilacerando teu sono
com meus cinzéis...

Mas, docemente
levemente perverso
assim
a pouco e pouco
em delicadezas jamais vistas
e requintes de suavidade
- enquanto arqueias irresoluta
entre suores e gemidos
palavrões e riso louco -
inventando às pressas que te amo
antes que incendeies o universo.

CIDADE


Caio Martins
Para Tati











(img: cvm - womanstudio-coygni - newyork/2000)

Quando teus olhos percorrem a cidade
que desliza sob a noite em tensas veias
de aço e óleo e ódio e chamas
ela como que estremece de espanto
enquanto não dormes, fantasias
o torpor lento dos amantes...

Percorre então tua pele
como se fora brisa, um arrepio
suave e o oposto do delírio
feroz de posse do cio frenético
ôco e mecânico e estático
das solidões perdidas pelas ruas.

Mas, se cai tua lágrima comovida
na face mergulhada entre teus seios
tens num leve instante um relicário
de sons e luz e espelhos
de alegorias vãs de mulher
alumbrada cidade de desejos.

20 de set de 2009

TRATO COM O DIABO


Caio Martins

Aquilo era coisa muito antiga, diriam os amigos mergulhados em hi-tec, chips, TI e parafernália toda da nova era tecnológica... Mas, fizera um trato. Outra coisa fora de moda, característica sua, era a de cumprir compromissos e promessas. Ademais de estudar gramática, ler Castro Alves, Machado, Drummond, Guimarães, Veríssimo - a nata da literatura brasileira. Podia? Não, não podia...

Não fumava, não cheirava, de vez em quando tomava uma caipirinha aguada e ficava rindo feito besta. Era careta, sabia. Na indecisão, ficara uns dias na quietude de uma chácara, meditando. A velhinha encarquilhada e quase centenária lhe dissera, anos atrás, dedo em riste na direção do vulto que passava na rua em exagero de velocidade: - É o Capeta! Esse é o Diabo... - e correra, lentamente e resmungando, a acender vela branca, botar copo d'água no altarzinho da Virgem para o Anjo da Guarda. E cada vez que o Tinhoso, o Coisa Ruim passava com estardalhaço, largando fumaça e cheiro de enxofre, insultava corajosamente, apesar da idade.

Carregava o cansaço dos últimos da tribo, da galera nascida e criada junta, que agora se desfazia perigosamente, cada com seu par, outros destinos e desígnios e aquela fé e força que tanto os unira, destinava-se a objetos e pessoas fora do círculo acroamático original. O cyberespaço era infinito, a interação teclada substituíra, descontroladamente, aquele toque, aquela palavra, aquela troca de emoções miudinhas... até mesmo a boa trombada, vez por outra, por qualquer motivo fútil. Junto ao cansaço, trazia a determinação de mudar as coisas.

Daí, armara-se de coragem. Não tinha pelo menos uns mil e-mails carregados de intenções, propostas, promessas, sonhos, mentirinhas e mentironas, além das vezes em que, com jeito e manha, permitira levar-se ao topo do prédio e, dali, ouvira tantas vezes que tudo aquilo seria seu? Naquele dia, depois da meditação e passando longe dos incensos e velas da avó, agora mais que centenária, decidira-se: ia fazer a besteira. Foi uma longa preparação. Descobrir a hora e o dia certos, o lugar propício, preparar-se com requinte e, essencialmente, manter o mais absoluto e resoluto segredo.

Foi gentil, estava tão assustado quanto ela, porém, apesar de toda a paixão, a tratara como se delicada flor, precioso cristal. O trauma da virgindade perdida confirmara-se uma lenda, o outrora menino que infernara as ruas com a moto barulhenta e fedorenta mostrara-se muito carinhoso, paciente e cuidadoso. Choraram juntos. Esse, o trato... Terminando o dia, um pôr-do-sol fantástico sobre a cidade, ficaram abraçados quietinhos, sem nada dizer, comovidos feito o diabo.

(img: eros e psiqué - 1817 - óleo sobre tela de Jacques-Louis David)

16 de set de 2009

A ESPADA


Caio Martins

Aproveitando propício momento, fora atrás do sonho ainda muito menina, uma criança. A “Primavera de Praga” sucumbira sob os tanques soviéticos, havia desencontros e confusões, agitação e tristeza por toda a Tchecoslováquia. Passou sua figura miúda e leve por manifestantes, soldados, chuva de pedras e nuvens de gás lacrimogêneo. Encontrou a ladeira de pedras antigas e a porta de ferro batido, as escadarias de carvalho e, numa sala soturna, iluminada por candeeiro a óleo, o velho sumido em trapos. A mão da mãe a soltou.

- Vim buscar a espada! - disse, num idioma inóspito e que lhe era estranho.

O velho indicou-lhe onde. Pesada, corroída pelo tempo, a madeira do cabo desaparecera há décadas, talvez, mais de século. Beijou a mão ressequida e frágil, pegaram a conquista e saíram apressadas. A relíquia passou alfândegas com funcionários relapsos e cansados de alguns países até, finalmente, chegar em casa. Levou-a, anos depois, a ferreiro perdido no fim do mundo, nas serras de Minas, e pediu-lhe a reconstrução. Esse também, sem palavras vãs, pegou, sopesou e pediu-lhe um mês. Estremecera de emoção. O pai, companheiro da empreitada, também.

Nos trinta dias, pegou-a. Perfeita, polida, o cabo de raiz de jacarandá amoldando-se em suas mãos pequenas como se juntos tivessem nascido. Pagou em ouro, moeda trazida de outras eras e herdadas em gerações. Lauma respirou fundo, intangível, verificando a arma ancestral milímetro a milímetro em busca de imperfeições inexistentes, e pegou o caminho de volta. Completara o ciclo. Teria, agora, vinte e um anos passados, de tê-la em ritual milenar, repor sua marca e intensidade para, finalmente, dotar-se do último elemento para a definitiva consagração espiritual.

Mas, havia um homem, frágil e perdido de si e do mundo, que lhe entrara pela pele e tornara-se, ao mesmo tempo, numa promessa de amor e perspectiva de um desastre. Daniel... reduzido, de líder emblemático e moderno guerreiro, a espantalho lamentoso por ter-lhe cruzado o caminho, na hora errada, um anjo perdido; fêmea primitiva e oblíqua, para quem o mundo começava e terminava nas genitálias e, pela graça e beleza, seduzia instintivamente os alfas de sua espécie. Letícia...

Conseguisse centrar-se, seria sua própria salvação, a libertaria para seguir sua saga e seus caminhos. Não podia permitir-se odiá-la, porém, odiava. Na sua linhagem e tradição, eram-lhe vedados humanos sentimentos banais; paixão e ódio, rancor e mágoas, desejo e medo... Filha do equilíbrio e da sabedoria, Lauma chorara apenas uma vez, quando aquele homem fraco a inundara de tanto carinho que perdera, além do controle, a férrea vontade e certeza de sexo ser como singela busca de alimento, madrugada em curso, num assalto à geladeira. Letícia era promíscua, indecorosa, irresponsável, indecente, impudica, compulsiva... E Daniel, um fraco. Ela? Uma vestal...

Teria de purificar-se e elevar-se, pôr-se acima e distante de inconsistências e vulnerabilidades cuja única função era pô-la à prova. A espada, de ferro batido e transformado em aço na têmpera em um ser vivo, quiçá um guerreiro, há séculos, era sua garantia de poderes tais que, num momento relapso, ao putear contra um homem, matara por tabela o cãozinho da família, oculto sob o carro. A espada lhe daria o controle e a sintonia de seu lado destrutivo. Seria sua garantia, na verdade contra si mesma, e sorte de muita gente.

Limpou-a cuidadosamente, em minúcias. Empunhou e cedeu ao peso. Não era para batalhas, em tempos ditos civilizados. Depositou-a carinhosamente num altar na parede norte de seu quarto, entre cristais - alguns preciosos - envolta em villuto carmim sob um atilho de seda azul, o mesmo que, trançado, lhe segurara os cabelos quando conhecera Daniel. Satisfeita, determinada e feliz, foi à cata dos elementos que utilizaria em sua liturgia, na noite em que a lua seria apenas uma curva imperceptível na escuridão do céu. Ervas, pedras, metais, terra, fogo, água e banhada em ar, outros segredos e mistérios.

Sentou-se na cozinha, espichando as pernas e braços, espreguiçando-se prazerosamente. O gato subiu-lhe em cima e, ronronando alto, aninhou-se-lhe no colo. Sentia-se bem, apenas a memória do corpo incomodando sutilmente com reprises do sexo desbragado com um homem instável que, curto tempo atrás, a fizera sentir-se estupidamente mulher pela primeira vez na vida.

- Sabe que mais, gatinho? A sua dona está ficando louca...

(img: cvm - têmpera - trecho de “zero-hora: um anjo perdido” - 1996)

12 de set de 2009

OPERETA


Caio Martins










(cvm - teatro de vicenza/venetto - em "mulher, imagens e poemas" 1998)

Estarás sempre assim
com teus olhos tristes
tua boca de pejo
num palco de ausente orquestra
flutuando entre os fantasmas
de teus fantasmas
num teatro
esquecido do mundo...

Dizendo querer beijar, dizendo
querer, no fundo,
mais e mais fundo, para então
entre soturnas sombras
de tuas sombras
se lamentar.

Estarás sempre assim
com teu jeito leve
imponderável
de mito em cenário opaco
e quando eu esperar lágrimas
por certo irás rir
cantar
dançar.

E direi sempre que ao instante
previsto e desconcertante
ao te revelares só mulher
outro dilema virá, enfim
sob a música de teus lamentos
de fêmea
dissipando o espetáculo
devagar...

7 de set de 2009

ETÉREA


Caio Martins












(img: cvm - lecazul - em “mulher, imagens e poemas” - 2001.

Por que fui querer assim
essa mulher de mistérios
que fala de amores perfeitos
e das sombras uiva à Lua
em cio, fogo, desconcerto...

Por que, querer assim essa mulher
perder o sono, a sede, a fome
ficar transtornado de desejo
se a sei eterna, louca, desconforme
e me desfaz em cacos, quando a vejo...

Ah! por que fui querer assim
essa mulher imprevista e fugidia
que oscila entre fuga e reconquista,
que me retalha e consome, feito
um anjo perdido, uma vadia...

2 de set de 2009

A MOÇA QUE ATOLOU NO BREJO


Caio Martins

Ao Paulino Venâncio Martins, meu avô.

Diz que micuim de amor não tem juízo. Daí, que o fazendeiro de infinitas léguas, coroné de baraço e cutelo, pegou umas rosquinhas, uma garrafa de licor de jenipapo, a filha dum compadre de coronelice e farreio, moçoila alemoa solteira e fogosa, ponhou tudo no carrão recém chegado das Oropa e disparou pr'os lajedos do Rio Pardo, perto d'onde hoje ainda é a Fazenda Amália, só pr'a vadiá. Casado e renomado, quando passava com a máquina preta roncando, até galinha ficava uma semana sem botá.

Mas, perto do Águas Claras, a moça grudou ele, o fazendeiro perdeu o bridão do bicho e os dois meteram os quarenta cavalos no afamado Brejão do Sapo, do lado da estrada. E veio gente, tentaram com cavalo e burro de tropa, e puxa e repuxa, o trem parecia era cada vez mais grudado, nada de despená.

Aí, num carro de boi cantador de gaita, veio chegando o Paulino Venâncio, pai do contador que então inda era menino, devagar como se tivesse a vida inteira pr'a chegar em nenhum canto. Tinha oito boi na junta, desses de encher os zóio, cada beleza de animal que Deus fez só para se gabar.

Chegou, parou, assuntou e riu dum jeito matreiro, lá com seus bigodão. Não gostava muito do fulano, e aquela história ia correr o mundo. Ademais a moça era filha de terratenente jagunceiro arrespeitado. Diz-que acoitava o Dioguinho, é, mas ele, sim. E a mulher do atolado era uma jaguatirica de braba, dessas de capá marrote só de zoiá.

- Ô Paulino! Desatrela os bois, puxa e despena meu carro desse atoleiro desgraçado!
- Ô, Coroné!...Uai, sô! 'cê num disse que esse trem tem mais de quarenta cavalo? E tá pedindo ajuda de uns boizim?

E o outro implorou que desatrelasse os oito bois, a moça atolada dentro do carro chorando, aquele povo de capiau na flirtiva se rindo.

- Tá bão, cumpadre! Vou arresorvê! Vou tirá essa porquera pr'ocê!

Gritou para o Aquiles Grande, disfarçado de carreiro, que desatrelasse só a junta de guia, pois para tirar uma tranqueira daquelas, dois boizinhos bastavam. O Sacamoto e o Graúna, no aboio e som do ferrão e atolados até na barbela, foram puxando, estirando e, dai a pouco máquina, moça rindo, licor de jenipapo e rosquinhas estavam na estrada, tudo despenado.

Porque boi, contrário de cavalo, mula e burro, não dá tranco, arrancada, solavanco. Puxa estirado, vai aumentando a força devagar, na sabedoria. Aí, pr'a encurtar essa prosa que já foi longe demais, o fazendeiro disse que o Venâncio podia pedir o que quisesse, já que viu que ele não desgrudava o olho da alemoa, moça ancuda e volteada, parecendo 'té canga ajeitada nas curva das beleza lá dela, agarrada c'o a garrafa de licor e a lata de rosquinha.

Venâncio coçou a barba, ajeitou o bigodão, assuntando a moça, olho no chão, no fulano, foi e voltou, rezoiou, parecendo boi ruminando lá as maracutáia dele.

- Êh, trem bão... 'tá bão! Só que num sei se 'ocê vai dá concordânça! O que eu vô querê, acho que ocê num vai podê me dá!

O fazendeiro, que não queria ser o único a responder por descaminho de moça solteira, crime naquela época, filha de acoitador de jagunço - coisa pior ainda - já basofiou, montando empinado nas botas de canela alta embolostradas de barro:

- Pois, Seu Venâncio: é só pedir e pode levar!

A moça abriu o berreiro, soluçando fundo e magoado.

- Pois, Seu Fabrício: pode me passá o licor de jenipapo e os biscoito, aí, que inté 'tá bem pagado, pela tunda que meus dois boi deu nos seus quarenta cavalo...

*(“Causo” estoriado, de Jayme Venâncio Martins, e publicado no livro “Carro de Boi”, compilação do autor com base na tese de mesmo nome de Horácio Ramalho e apresentação de Luiz Tortorello, para a 8ª Festa do Peão de Boiadeiro de São Caetano do Sul, 1997. O vocabulário manteve-se fiel à gravação. Gráfica Romus. Img: carro de boi de quatro juntas, 1916 - arquivos)


30 de ago de 2009

COISA FEITA


Caio Martins

Caboclinho calado e magricela, moleque danado posto no eito desde os nove como nos conformes de então e nas lidas da roça, arrastou-se feito cobra entre as taboas do alagado, caçando o vozerio. Falavam arrastado em italianado brasileiro, rindo muito. Assunto? Daí ferveu o sangue: os labrostes falavam de sua mãe, imigrante italiana que, depois de doze filhos, ainda era faceira. O pai, que já fora ilustre nos tempos fartos do café e ia e vinha ao Porto de Santos negociar colheitas na rama, caíra em desgraça por preferir a linda taninha, de treze anos e analfabeta, a uma prima troncha e ilustrada, para garantia das posses da família. Deram-lhe pedaço de terra e o banimento; e um desapego que o acompanhou por vida.

Levavam espingardas e o carcamano debochado e falador, dono da única venda da região, duas garruchas 44 tauxiadas de prata, na cinta. A fúria se aguentou no freio, escorregou feito caxingui e saiu do risco. Subiu, depois da mata, a estrada esburacada e pedregosa, já nas terras do pai. Parou na capelinha e caldeou jura de morte. Não lhe dissera, o velho Aquiles - jagunço que fora pé-de-tronco de Dioguinho nos fins dos oitocentos e que lhe fizera a mão nas armas, que mãe era coisa sagrada? Foi a passo, o sol queimando as costas, aquecendo venenos. Sábado, estavam todos no descanso e preparando o terço. Entrou quieto e saiu calado, a papo-amarelo de esguelha já carregada e o resto da munição no embornal. Pegou o burro Sereno - que burro não dá incerteza - no cabresto, pulou encima em pelo e refez a trilha, a passo.

Desceu fino ante as seis portas da venda, o debochado e a caterva riam no balcão. Chegou manso, cabeça baixa e olhando de lado, de repente falou o nome do sujeito e perguntou que é que estava falando da mãe. Do riso fez-se silêncio de pegar com a mão. Antes de ouvir o “- Que é que tá dizendo, moleque!” - já pipocou o primeiro tiro que torou a ponta da orelha do fulano e botou, eram uns cinco ou seis, os basbaques em correria. E foi a carga toda, menos duas balas, arrebentando garrafas, arrancando trens das prateleiras e, a última, quando o carcamano pulou a janela do fundo, tirou-lhe lasca da bunda. Com duas, ainda tinha de quê se valer no recuo, se acossado, aprendera com o padrinho, o Grande. Saiu devagarinho, solerte, metendo mais munição na carabina. Por todo lado, ninguém. Escafederam.

Chegou em casa na toada em que foi. Na cozinha, pegou os apetrechos do pai e limpou a cortadeira, cuidadosa e concentradamente. A mãe veio e perguntou que diabos andava fazendo com a carabina, no seu sotaque siciliano arrastado e o vestido de terço azul, de golinha e florezinhas fru-fuzando. Disse que só fora afinar a mira, que depois falava com o pai. Veio este, alarmado e bufando. Saíram ao pátio de secar café e contou-lhe os fatos da coisa feita, curto e certeiro. O homem tropicou nos cascos. Parando de xingar, olhou duro o moleque nos olhos, segurando-o pelos ombros e sacudindo:

- Fiadaputa! Cabeça de mula! Por que não me disse antes de armar essa desgraçeira? Eu é que tenho de resolver isso! Por que?
- Porque se o senhor vai, aí ‘tava o boi no chão... Ia e matava. Não tinha senão...
- Senão? Que bosta de senão, seu besta?!
- Daí a mãe ficava sem marido e nós sem pai. Eu sei onde atiro. Eu sumindo, é boca de menos e a família segue sem mais... Mas dá em nada, pai, esse se mete no cu do mundo e nunca mais fala da mãe de ninguém. É um cagão, pai, vai ter outra vez não...

Levou um chacoalhão, sonoro cascudo na cabeça e sapatão na bunda, a ordem de arrumar uma trouxa de roupas, pegar o Sereno e amoitar-se, uns tempos, na distante Lagoa Preta, na casa dos parentes. Lá ainda mantinham, naquele primeiro quarto de século, jagunços e arsenal. Foi. Um tempo, e voltaria herói da mãe, cisma do pai e orgulho do Aquiles Grande, o último dos trabuqueiros. O carcamano sumira e, diz quem conta, estaria correndo até hoje, no Inferno, com o Tinhoso cascando-lhe fogo no rabo.

(img: cvm - pietá - michelangelo, sobre arquivos)

25 de ago de 2009

LAGO


Caio Martins










(img: m. calmont - s.c. do sul /62 - em "mulheres, imagens e poemas - 1999")

Submersos
em tensões arbitrárias
seria mais fácil
ao ter-te sem limites, dito
simplesmente que te amava, para
só depois te fazer chorar.

Mas, ficavas assim,
desvalida
no meu abraço
em calma na qual tudo era tanto,
tão pouco, vaga
e frágil inesperança rara,
tão corriqueira
tão vulgar.

Ficaram as cicatrizes
das palavras indecisas, o corpo
na memória do corpo,
ansiosa busca
de sensações perdidas
silêncios, teu cheiro, gosto
essa insuportável
saudade intangível, tênue,
incidental como um lago
mergulhado
no ar...

10 de ago de 2009

ÁGUAS


Caio Martins










(img: o pescador e a sereia - knut ekwall - 1837/1887,
em "mulher, imagens e poemas" - 1999)

Tudo em ti desliza brandamente
como quem diz uma mentira
enquanto perguntas como foi possível
tua amiga entrar no vestido.

Cruzas e descruzas ternas
pernas em meias escuras
abres sorrisos, ficas séria
dentro de um decote infinito.

E te perfumas, produzes, enfeitas
ciclotímica, audaz, inconformada
maré revolta, fugaz, enfeitiçada.

Ah! mulher! Tão como água, bates
e resvalas plástica, em penedos
desfeita em euforia, ardor e medo...

31 de jul de 2009

CENÁRIOS


Caio Martins

Bebera em demasia. Stela ficara à distância, com amigas, sequer o olhara até momentos antes. Lá no fundo, o noivo recém-abandonado ruminara terríveis vinganças, “... mulherzinha à toa, sem moral, cretinaça...” Sequer explicara, dizendo que tudo estava acabado, tome lá “seu anel de falso-brilhante sem dois pra lá dois pra cá, tô fora!” Tinha de ser o ordinário do músico, poeta delirante e boêmio, mulherengo e pudim de cachaça... Cantava para ela, escrevia versos safados, passavam o tempo olhando-se, canalhas...

Saiu do palco, sentou-se a uma mesinha abandonada, ao pé do janelão. Precisava de ar. Madrugada de inverno, o bar latino-americano, até então apinhado mas já esvaziando, lá fora a névoa deixando cenário enigmático, mesmo macabro. O boliviano clandestino trouxe-lhe um “pastel de choclo”, empanadas, um chope e uma cachaça, oferta da casa. Na penumbra, somente viu o brilho dos olhos negros de Stela. Jogou a cachaça pela janela. Alguém na rua, furioso, o puteou imediatamente.

Dissera ao noivo que tudo, numa mulher, era saber apertar os botões certos. O pascácio não entendera, pensara nos bicos dos seios e outros brinquedinhos sensíveis. O sujeitinho viera, de peito estufado e grandes bíceps, tomar satisfação. Chamara o Bolita, entregara-lhe sugestivamente uma navalha siciliana de palmo e dissera-lhe que a guardasse na caixa do violão. Depois, voz macia, entupira o pedaço de mula de papo de aranha e cachaça, tomada para mostrar que era macho, falando da alma feminina deidificada nas religiões e acima dos meros mortais. Eram todos vítimas e coisa e tal... Engolira.

O sujeito, por fim, soluçara. Agora, debruçado sobre a outra mesa, apagara feio. Levantou-se, olhou o ambiente e a ausência dos olhos negros. Saiu vacilando entre cadeiras, bêbados, drogados e soledades crônicas, ganhou a rua chuviscosa, entrou no carro e pegou automaticamente o caminho de casa, muito devagarinho. No trecho de rodovia, pareceu-lhe que a pista abria e fechava, ondulava e tremia. Chegou, todavia. O guarda-noturno o esperava sob uma quaresmeira. Bom sujeito, apesar de abstêmio.

Deu-lhe a chave do carro, como sempre. E, espanto: no jardim, o carrinho tão conhecido... Era ela. Tentando abrir a porta, Stela antecipou-se. Puxou-o (era miuda, chegava-lhe ao queixo), abraçou de pernas e braços, beijou-o, rolaram para o tapete em dança bizarra. Devassaram-se manhã adentro, sôfregos, quanto mais, queriam mais, até caírem destartalados. Stela observou atentamente os estragos, dos arranhões nas costas e no peito dele, às orquídeas pelo próprio pescoço e colo e coxas; e todo o resto do cenário para ver o que sobrara do apocalipse.

Depois, achegando-se e a cobri-los com uma antiga colcha de retalhos, o aninhou ao peito. Desfeito, ar abestalhado, sorriu a meias e disse-lhe prosaico “te amo” antes de desabar-lhe de vez entre os seios. Tinha um rosto bonito, traços fortes. Stela, descabelada e triunfante, o acomodou sob a coberta. Deixou escorrer um tempo, tocou-lhe os lábios levemente e disse-lhe, divertida e sem importar-se em ser ouvida:

- Palhaço!

(img: ary scheffer - os fantasmas de paolo e francesca
surgem para virgílio e dante - 1835)


26 de jul de 2009

LIMITES


Caio Martins













(img: o beijo - auguste rodin - 1840/1917)

Chega-se ao impossível
como que chegando
às bordas dos limites
do absurdo irreversível
de envolver-se em amar
muito além do permitido...

Nessa insólita profusão
de sutilezas, jogo e risos
gestos sutis de desejo
engolimos uma bebida amarga
derrotados em loucura amena
misturando-se magias, e tantos ritos.

Jamais poderemos deslindar
essa bagunça infinita!

Só posso te dizer
que o tempo se perde, se esvai, corrói
em palavras doces e febris
dissimuladas e aflitas
e jamais doeu assim
um amor, como este dói.

13 de jul de 2009

AMAR


Caio Martins











(img: cvm - leca98 - em "mulher, imagens e poemas")

Deixar-me de novo naufragar
fundo
nesse temerário mar noturno
de tua maneira de amar
improvisada, aos pedaços
eterno recomeçar
sem busca, sem destino.

Deixar o corpo
abusar de sua linguagem
mergulhado em tua tepidez inquieta
simples como um menino
nem um deus, nem um poeta.

Mas, no instante seguinte ao instante
de meu soçobro e teu delírio
de novo lançaria ao mar
este amor feito de nada.

Só caprichos, desatinos...

1 de jul de 2009

O CÃO DE AVISOS


Caio Martins










(img: cvm - porta do cárcere da Central de Polícia montevideana, esquina de San José e Yi)

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Nesta madrugada em solitária
tudo foi gasto, perdido
na corrosão de mitos.

Já gritei, briguei, joguei
a sorte, a vida, a morte
preparei conspirações
quedas e ascensões.
Enjaulado
confesso ter perdido batalhas.

A estaca
estanca a corda
no caminho da rua.

Dentro da madrugada uiva um cão
louco e comovente
desde sempre preso.

Coleira, corda, portão
o caminho da rua e da vida
acenando do outro lado.
Solidarizo-me.

Sempre fui solidário
com vira-latas,
nem sempre minha mão ficou contida ...

Uiva, meu caro amigo.
Dentro da noite, noite adentro
uiva
até fundires teu lamento
ao cimento da tua estaca.

Uiva alto e a bom som
até fundirem-se, pele e couro
a coleira e teu pescoço, teu ódio
e o osso que roemos juntos.
Uiva, para a noite escutar.

De minha cela de prisão, compañero,
eu que já fui guerreiro
e já não sou poeta, mais nada
uivarei contigo
de meu poleiro.

(montevideo - 27/11/1969 - aislamento del centro general
de instrucción de oficiales de la reserva - cgior)


30 de jun de 2009

RITUAL


Caio Martins
Para Márcia e Jorge.

Nada poderia ficar ao acaso, não seria justo. Passou o dia limpando a casa, cada desvão, saliência, até a exaustão. Depois foi ao mar, ficou um tempo em estado de graça, entre as ondas. Voltou a passo, memórias enfileirando-se sem pressa, num biquíni escasso disfarçado pela canga de cores fortes. Havia prazer ao respirar, o ar cálido envolvia e invadia sem arestas. Tirou sal e areia no jardim, secou-se com velha toalha verde de estimação, vestiu o corriqueiro, entrou no carro e partiu sem ansiedades.

O prazer da estrada. Aprendera cada código, cada mistério e a lidar com o imponderável com o namorado... não, não era um namorado: era seu amante, anjo da guarda sem-vergonha, seu terno dono improvisado. Chegou ainda dia, entrou abraçada com um buquê de rosas amarelas. Cortou pedacinho dos talos, pôs num vaso azul de cristal talhado e as festejou um tempo. Quando chegou cheirando a trânsito, cigarro e suor, não se deixou sequer abraçar, quanto mais beijar. Meteu-o no chuveiro, mesmo que reticente e, até, de péssimo humor.

De novo na estrada, rosas cuidadosamente embrulhadas no banco de trás, em companhia de uma bolsa com um potinho de mel, um vinho raro, o frasco de óleo de oliva e um vidro com coisicas como sal gema, pedras de incenso, mirra, lavanda seca, além de três grossas velas azuis, curtas. Ele ficara amuado, calado, coisa esperada. Cheirara as rosas, quisera meter a mão nos trecos, ainda tentara abraçá-la, porém, fora vencido. O prazer do jogo. Meio do caminho, lua despudorada iluminando a serra e, muito abaixo, a planície até o mar, quebrou-se o silêncio.

- Pode me dizer que é que está armando? Eu conheço essa cara... Pode?
- Não! Ainda não aprendeu que gosto de silêncio de vez em quando?
- E você ainda não aprendeu que tenho bronca com surpresas? Pra quê complicar?

Já na casa, desfez-se a incógnita. Centrados, ajoelhados nus sobre uma esteira e cercados pelo equilátero das velas e pelas rosas, ficaram um tempo em silêncio. Ao ver os trens, ele entendera, falaram há tempos dessas liturgias. No alguidar de barro, as brasas tiravam perfumes dos cristais, raminhos e resinas. Entre os dois, potinhos com os outros elementos. Beberam vinho da mesma taça. Deu-lhe uma pedrinha de sal, recebeu outra, tocou-o suavemente na testa, lábios, no peito, no sexo com o azeite. Recebeu os roces de volta, depois foi o mel e beijos como de mar, vezes.

Pela lua, ou pela luz azulada das velas, ou por raríssima energia, cercaram-se de rarefeita luminescência. O cenário, a memória dos corpos, a paixão e emoções acariciadas como se dançassem tango, os levou a terem-se como futuras divindades cibernéticas, como demônios primitivos gregos, enfim, como singelos animais. Exaustos, fartos, frouxos, enroscados livres sobre a esteira, derreteram-se em mansas carícias e intermináveis olhares. Beijou-o sobre o coração e, num repente felino, mordeu forte, até sangrar. Não reagiu. Retesou-se, o grito travado e a mão no ar.

Já quase dia, uma corruíra estrilando pelo jardim, entrou no carro e partiu. Deixou-se nua e quieta na esteira, olhos grudados no teto, até que desolada, mas, com doce alívio nas veias. Tudo findaria ali, num improvável ritual de nunca mais.

(trecho de “zero hora: um anjo perdido" - 1999.)
(img: brocado rosa - acrílico sobre tela- fabian pérez).


21 de jun de 2009

AMOR


Caio Martins
Para Cristina Lima











(img: "janaína/cvm" - augusto coelho)

Com rara artesania
neste lugar
que nos conhece tanto
o amor armou seu canto.

Magoados, abertos, tontos
não houve mais pranto
só a sensação penetrante
de uma tragédia de bar.

Meu deus, Cristina, que cenário!

Os músicos não mais tocaram
calou-se o vozerio
e o garçom, ponta-de-pés
mantinha o ar estacionário.

Sorriam? Nada víamos...

O amor semeava e colhia
luzes sombrias em nosso olhar
e os olhares gerais recolhiam
traços de mel, e espanto, e sal.

Tudo, nunca mais
seria igual...

Só esse amor, morto num canto...

(penã cauan - julho de 87)

19 de jun de 2009

O MATO


Caio Martins


Cercado, meteu-se na mata, serra acima. Tirou do carro quebrado e furado de bala apenas a chave de roda, um tapete de borracha, alguns metros de corda de náilon e documentos. No chaveiro, um antigo canivete. Era o que precisava. Não sabia quem eram os perseguidores, mal os vira quando o fecharam com um caminhão velho e, sem aviso, passaram a atirar. Não atinava com motivos, assalto não fora, naquela estradinha safada que ia do nada a lugar nenhum, nela entrara achando que cortaria caminho até alguma via principal.

Não tinha tempo para recriminar-se. Quando ocorre o desconhecido, há que buscar o que se conhece. Num lance entre pedras, já bem acima, viu o caminhão e um carro chegando, os homens saindo de armas na mão. Um deles levava uma carabina. Olharam ao redor, encontraram o rastro, dois ficaram e cinco vieram atrás. No trecho a mata se adensava, havia uma trilha. Desfez, nela, suas marcas com um ramo e meteu-se nas brenhas. Não brigava com as plantas e o terreno: deslizava entre eles.

Sempre para cima, sabia que tinha poucas horas até o fim do dia. A cada fio d’água, bebia o que podia. Avançava devagar, precavido. O perigo maior era uma coral, uma jararaca, jaracuçu, escorpião, correição de formiga, um ninho de quenquém rajada, bichos. Conhecia bem as matas e nada temia, estava em casa. Empurra daqui, rasteja dali, desvia do outro lado, volta e contorna, vai ganhando terreno. Para em intervalos, ouvidos atentos, olhos fechados. Só havia o canto dos pássaros e o zumbido dos insetos. Tinham-lhe perdido o rastro.

Num trecho denso, encontrou a raridade de um jequitibá esguio e muito alto, coberto de cipós desde o topo. Atou as tralhas, buscou o caminho e alcançou a copa, já morrendo o dia. Vistoriou e não havia vizinhos perigosos. Amarrou-se pela cintura e em três pontos dos galhos, o tapete por baixo de encosto, testou o esquema e aprovou. Já passara o medo, o susto. A questão era o porquê. Remexeu cada dia da vida, durante a noite, buscando algum erro, injustiça ou atitude que merecesse ser punida com morte. Nada. Muito longe, clarões denunciavam cidades.

Acordou com a passarada, fim de madrugada fria, mijou no tronco, tirou insetos das roupas. Ali, ele era a comida. Tremia um pouco, ao descer, meio dolorido. No lusco-fusco, acertou o rumo pelo clarão do sol, seguiu noroeste em marcha batida. Ouvia, de muito longe, um rumor permanente. Devia ser a rodovia. Viu um canudo curto saindo de um tronco e comemorou: abelha jataí. A chave de roda foi providencial. À frente, cortou um palmito, achou larva de pau, depois um fio d’água. Fartou-se. Deu graças ao sargento que queria matar, quando no exército.

Meio do dia, ajeitou o tapete num claro e deitou-se. O ruído da rodovia, próxima, o incitava a apressar a caminhada, a razão mandava esperar. Vendo um pedaço de céu, ouvindo o barulho do vento e, de repente, como se lhe caísse um galho na cabeça, atinou: a morena. Há dois dias parara num posto, na barraca de caldo de cana estava a moça linda, que com ele se encantara; pegara um quarto na pousada dos caminhoneiros e, lá, fora a noite de delícias. Ela pouco sabia das coisas. Seriam os irmãos, o pai, namorado, vai saber.

Andou, durante a noite, vários quilômetros até chegar a uma cidade. Lavou-se no posto, comeu, comprou uma mochila, alguns equipamentos úteis e comida em lata. Fez caminho contrário na pressa, de manhãzinha já tocaiava. Conta ao moço da cidade, rindo das memórias de tanto tempo, que, no momento certo, achegou-se ao balcão. Atrás, a morena triste. Fora surrada. Ela confirma, diz que largou tudo e, com extrema cautela, pegaram a estrada do nada para lugar nenhum e sumiram no mato.

(apiaí - dezembro de 1986/2009. img: vale do reibeira - adriano gambarini .)

13 de jun de 2009

O VELÓRIO


Caio Martins

Tanto tempo passado e continuava a angústia e o sobressalto ao toque do telefone, ou ao abrir o correio eletrônico; de noite, então, piorava. Os sonhos insistiam, mudavam somente cores e cenários, ela nos meio-tons de cinza e semitons dos sons de cordas desafinadas. Ah!, mas não era durão, já não trocara chumbo com bandido, terçara faca com psicopata, saíra sozinho na mão com meia-dúzia (enfim, um tranca-ruas ainda que bem intencionado)? Agora, caído naquele estado lamentável de paixão desgraçada e degradante, amando em seco, a auto-estima em cacos...

De um lado a TV muda, de outro o som sem imagens do estéreo com Tchaikovsky e a Entrada 1812 pela Filarmônica de Berlim. Coisa fina... Na frente, a telinha do PC. Nela, a imagem de olhos e cabelos negros, traços severos, seios líricos, o corpo em curvatura felina, longos braços e pernas e pés e mãos de joalheria. No peito o aperto, nos olhos a lágrima na boca do destape, mudou o fundo de tela. Deixou sóbrio cinza. E foi aí que aconteceu o desastre: o telefone tocou. Um choque, como raio, correu do peito ao cérebro. Respirou fundo, os canhões disparando, na música.

No repicar dos sinos, a Bastilha tomada, pegou o aparelho. Era ela. Cancelou a sinfônica, perguntou-lhe o nome bestamente, a porcaria da voz tremelicando ao tentar impostá-la. Seca, disse que lhe morrera a mãe, onde e a hora do velório, exata como equação linear. Destravou-se e transmitiu-lhe a pena que sentia. Gostava da ex-sogra. Perguntou-lhe se estava bem, ela disse ser dura e firme, agüentava bem as cacetadas da vida. Perguntou-lhe se queria que ele fosse. Respondeu que a mãe gostava muito dele, qualquer coisa menos que sim. Disse, assim mesmo, que iria.

Inícios da manhã entrou no local. Abraçou um que outro no caminho, nem viu como e estavam frente a frente, esbranquiçados. Deu-se um abraço longo e intenso, colado, quando soluçou ela pediu-lhe que não chorasse. Murmurou que não era pela ex-sogra, mas por ela. Como, sentindo-lhe o cheiro e o calor, os braços a enlaçá-lo sem pejo, de amante, outra coisa seria? Sentiu-lhe um estremecimento, soltou-a. Pessoas da ex-família vieram, não o viam desde a separação, queriam lamentar-se, saber dele, contar-lhe estórias. Suportou, sufocado, umas duas horas falando de banalidades.

Então, algo rasgou por dentro. Evitara ficar perto ou mesmo fitá-la, mas naquele momento o fez. Viu-a miúda e encolhida, tensa, nos mesmos tons de cinza dos sonhos. Nada a ver com a sensualidade do plano de fundo do PC, ou dos delírios dominantes até se com outras mulheres. Alegou compromissos e despediu-se polidamente de cada um. Enfrentados, novo abraço denso, agarrado, sôfrego, agora com platéia patética e hipnotizada na frente do espetáculo, passaram a milésimos de beijo indecente. Ele, amarelado, em fuga. Ela, enrubescida, quiçá na beira da asfixia.

Disse amar, pediu-lhe que o deixasse ir. Partiu impávido, sem olhar para trás. No trânsito, deu estrondoso berro dentro do carro, catando-se os cacos sem glórias, heróicas lágrimas lavando-lhe a honra e a memória. Naquele velório enterrara uma ilusão, despedira a esperança, cortara definitivamente os laços, achava-se, enfim, liberto!

Ao menos, até o próximo telefonema...

(img:cvm/cris/0702)

12 de jun de 2009

CANÇÃO À AMIGA


Caio Martins
Para Jane Vieira.










(img: marte, desarmado por vênus, cupido e as três graças - jacques louis david - 1822)


Vem, amiga!

Eu te espero lançado
entre a angústia e a desolação,
entre a solidão e a dúvida, quieto
pelas sombras de teus caminhos.

Pousa teu corpo em meu corpo
descansa tua face em meu ombro
deixa-me desmanchar teus cabelos
com carícias bobas, de brinquedo.

Leva-me a vida, deixa
que em teu sentir eu me consuma
até restares lívida, pálida
rosa que perdeu o sangue.

Após tua ida embora, sem apelos
o mundo que se exploda, desatine
quando não mais te puder enlaçar
no cansaço deste amor inconsequente.

Fica
em minha desconformidade qual criança
que se alumbra ao som do próprio coração
cismada, desconexa, expectante.

Vem, amiga!

Lança na noite teus receios
absorve meu corpo em teu corpo
deixa que eu te viva doídamente
num momento de ternura...

Nova Friburgo. 13/02/1968.


8 de jun de 2009

SÁBADO


Caio Martins
(trecho de “zero hora: um anjo perdido” 1996.)


Perdido depois de dramática separação, cultivou seu luto alguns meses. Então, um passo após o outro, Daniel começa a se reerguer, forçado por amigos atentos que não o deixam só. Volta ao emprego, restaura o apartamento, encara alimentação, exercícios e rígida rotina de tempos. Quando Letícia, agora tão longe, quer assumir-lhe os pensamentos, fala com pessoas queridas não importa a hora, amigos são para isso. Neste sábado concorda em sair à noite, talvez suba ao palco e diga poemas que, antes do desastre, emocionavam encontros e solidões. Está temeroso mas, feliz.

É esse homem assim renovado que, por volta das vinte e três horas, entra no bar onde fora personagem querida e habitual. Amigos e conhecidos, especialmente convidados, confraternizam-se e deixam-no mergulhar no ambiente alegre e reconfortante, pleno de intenções, onde reservou-se o direito e meios de demonstrar satisfação, atenção e generosidade. Meio da noitada, a balbúrdia correndo solta, pedem-lhe que declame Vinícius de Morais. É bom, nisso. Não escreve um verso, mas vive os do Poeta como se fossem seus.

O público silencia, etéreo músico inicia improvisos dissonantes ao violão, fica um foco de luz frisando a figura fantástica e seus fascínios: Daniel iridescente, sensibilizado e cego diz cada palavra com o frêmito de nela acreditar, incorpora O Poeta e é magistral em cena. Tons de voz, ênfases, expressões, gestos corporais dão-se com a força e naturalidade de limites tocados e não forçados. O álcool faz o resto, a platéia embevecida é todo o público frequentador que aplaude, aplaude e aplaude... “- Porque hoje, é sábado!”...

Voltando para a mesa, esfogueado e secando o suor muito e lágrimas poucas, é abraçado freneticamente por uma amiga, que diz-lhe ser um monstro, o máximo, o melhor que já viu, lambuza-lhe o rosto e pescoço a beijos, antes de ser delicadamente afastada. Os comentários são gratificantes, sabe ter atingido cada qual a fundo. O êxito causa-lhe intenso bem estar. É quando a amiga volta, puxando jovem mulher pela mão.

- Daniel, esta é uma amiga que quer conhecê-lo. Lauma: Daniel! Daniel: Lauma!

Nariz arrebitado, boca franca de doce sorriso, negros cabelos trançados com fita azul, o traje negro, negros olhos curiosos, talhe delicado, Lauma é beijada três vezes na face:

- Não é para casar, não! É porque gosto de beijar mulher bonita...
- Obrigada! Gostei muito do que você fez! Depois vou lhe mostrar uma música...

- ... ela canta igualzinho à Elis!...
- ... e espero fazer por você o mesmo que você fez por mim...

Não pode terminar, puxam Daniel para outra mesa, alguém começa a cantar. Música, agitação e vozerio diluem existências pessoais. Lauma vai para a pista com as amigas, desentende-se do grupo e deixa-se levar pelo som como se em transe, bailando só, instintiva. É boa nisso, o dom da dança equivalendo-se ao dom da palavra, sucessivamente as pessoas vão parando, abrindo um claro, o som é nitidamente latino, tumbadoras em salsa encantada. Na coreografia, improvisa e inventa; olhos fechados, lábios entreabertos, vertigem de roupas negras, a fita azul esvoaçando e braços nus seduzem inclusive os músicos, até então apenas preocupados em cumprir horários. Desperta, para, e é festivamente aplaudida.

Há encabulamento no sorriso parco da boca linda, deixa-se abraçar e beijar sem resistências. Ao líder da banda, que a quer como bailarina, após ouvir entusiástica rasgação de seda pergunta se pode cantar. Escolado, a leva até o teclado e põe-na à prova sem microfone, sob pretexto de acertar o tom. Detesta amadores. Encanta-se e é ao som da voz absoluta e cristalina, macia e aconchegante de Lauma que a noite se encerra. Homenageia Elis fechando com “Quem quiser falar com Deus” num timbre próprio, macio e de comovente intensidade. Finda-se, enfim, o espetáculo, fecha-se o bar e cada tribo sequestra seus pares, para a entrega em domicílio.

Uma com Vinícius, outro com Elis, vão-se para suas madrigueiras com seus ídolos mortos, planetas sem eira nem beira, saídos da madrugada do sábado para a solidão do domingo.

(img: estudio para monica, de fabián perez) (Vale a pena conhecer!)

3 de jun de 2009

CATEDRAL


Caio Martins











(img: cvm - sé catedral da guarda/portugal - liv tyler )


Teu corpo, templo
de transformadas pedras
em mitos triturados,
imbricado átrio, nave
de convulsa arquitetura
côncavos, convexos
secretos passadiços...

Estratificas heresias
em cânticos calcários
mas, somente transformada
em águas, declinas
meu corpo adjacente
irrompendo em góticos
estigmas de mulher...

1 de jun de 2009

ROTINA


Caio Martins

O apartamento era simples, espartano. A janela da sala, de canto a canto, dava para o Norte. A parede Leste recobria-se de pano cinza-chumbo, na Oeste a cor era azul escuro. Ao Sul havia mesa de imbuia maciça, seis cadeiras artesanais e um grande armário de aço cinza. Sobre o piso de tacos, grandes chapas de papelão branco, aparentemente em desordem. Um aparador de fórmica separava as metades da sala, pelas laterais havia equipamentos novos e antigos. Cheirava a casa de fazenda, haveria um bolo no forno.

Enquanto esperava, observava cuidadosamente o ambiente. Dissera-lhe para ali estar antes das onze, teriam hora e meia para trabalhar. Uma assistente, quase uma menina, media a luz com um fotômetro. O outro limpava lentes na mesa dos fundos, em meio a pincéis, flanelas e um aspirador pequeno e barulhento. Quem pensasse em encontrar holofotes, refletores de guarda-chuva, focos de luz-do-dia, nada acharia: nem um flash de torre, sequer. Não sabia por que a escolhera para a revista, nem mesmo perguntara. Seria um bom dinheiro por pouco tempo de câmara.

A menina foi depressa para o quarto da direita, transformado em escritório. Ele veio limpando óculos, barba desgrenhada, meia camisa fora das calças e a eterna cara de papai-noel. Sorriu-lhe, pediu que viesse à luz da janela. Olhou-a de alto a baixo, sussurrou-lhe que fosse ao escritório, tirasse blusa e sutiã, vestisse uma camisa branca masculina de tecido leve e prendesse os cabelos num coque de bailarina, além de limpar a maquiagem. Voltou em minutos, para a escada de três degraus e plataforma na parede Oeste. Encantava-se com o rigor do preparo da seção.

A mocinha rondou, com o fotômetro na mão e fazendo anotações. Espalharam a cartolina em volta, algumas folhas inclinadas. O sol de fim de outono batia de Nordeste e viu-se envolvida numa estranha luz. Disse-lhe que desabotoasse a camisa até o quinto botão, e fizesse exatamente o que ele mandasse. Respiração, umedecer ligeiramente os lábios, postura reta sem forçar, olhar em frente, rosto ligeiramente de lado, mãos nas coxas, braços soltos. Seguia as ordens sem pensar, duas máquinas clicando intermitentes e a menina cantando números. Sentia-se bem, gostava.

Ouviu-o pedir as veteranas Hasselblad e a Pentax para preto e branco; flashes leves dirigidos ao teto quase não eram percebidos. Disseram-lhe que podia descer. Foi ao quarto-escritório, repôs as roupas e voltou. Na mesa, cafezinho feito na hora e bolo de fubá com erva-doce. Todos falavam ao mesmo tempo, sentou-se, recebeu elogios, ele dizia que tinham aproveitado ao máximo o momento mágico. A luz, garantia, naqueles instantes de horário revelava, mais que a imagem, a essência, a alma das pessoas. Segundos a mais, segundos a menos, todo o trabalho estaria perdido.

De repente, o silêncio baixou. Os assistentes foram desmontar o cenário parco e passar as fotos para o computador. A menina disse que revelaria as P&B e trancou-se no banheiro, na porta um aviso: “Não abra! Perigo de vida!”. Estendeu a mão fina e delicada pela madeira escura. A mão pesada a envolveu com carinho. Olhos nos olhos, assim permaneceram um tempo. A menina, saindo do banheiro-laboratório, quebrou o encanto, dizendo entusiasmada que saíra linda de morrer... parou, olhou uma e o outro, várias vezes.

- Vocês são uns cretinos, ‘tá? Toda vez é essa merda... Posa logo, pô! Se casem, juntem os trapos de uma vez... Que saco! Pior que criança, meu!

Ele inclinou a cabeça, coçou a barba. Ela olhou para o forro.

- Vai posar nua?
- Não! Nunca!
- Então, não caso! Cacete!
- Está ótimo! Nem que fosse o último fotógrafo no mundo!

Os assistentes se foram em seguida. Aquilo iria longe. Discutiriam a tarde inteira, se amariam perdidamente, sairiam para jantar, a levaria para casa e, novamente, nem se casariam, nem a fotografaria nua. Rotina da última dezena de vezes em dois anos.

(img:cvm -denise297-2002)

29 de mai de 2009

CANÇÃO ACRE PARA LILIANE


Caio Martins
02/02/1968 - Largo de S. Francisco.









(img: cvmO9 - jailson james -XI/O8.)


Ainda eu era menino
botar na linha quiseram.

Não deu certo...
ganhei sermão e pancada.
Desistiram, deram pra rezar.

Sei não, Liliane
mas rezaram errado
nenhum deus me cumprimenta.

Num canto estás
quieta e calada
nua.
(Meu deus, que vergonha!)

Rimos,
não nos deciframos.
(Para quê? Alguém
fugiria com os mistérios...)

Liliane
soltaram a canalha nas ruas
ouvidos secretos soldados
gente rezando errado
com medo de gente nua.

Te dedico meu segredo:
o deus que nos espreita
feroz, violento, forjado
meteria bala de aço
em meu peito aberto
truncado.

Uma bala de chumbo
uma bala de ouro
uma bala...

O resto, Liliane
está guardado na impaciência
de meus atos libertários
armas e livros clandestinos
e nas estórias em que eu,
menino,
alumbrado por tua nudez
desconcertado
sonhava .

25 de mai de 2009

PROMESSA


Caio Martins

Leu algumas vezes o e-mail atrevido e impertinente, mesmo desaforado. Moça de pungente romantismo atávico e fora de moda riu, contudo, da provocação descarada e explícita. Aquele sujeito era atípico, das entrelinhas fluíam sensações de zelo, cumplicidade e afinidade sem gênero, mas sonhadas desde a existência de pessoas. Sabia de há muito que a amava, por ela faria qualquer loucura, na paz e na guerra. O ridículo da situação retratou-se-lhe numa antiga letra de bolero brega: “- quem eu quero não me quer, quem me quer, mandei embora...” . Ele? Não ia!

Não se tratava de sexo somente. Num tempo de materialismo exacerbado e informação irrestrita, havia manuais para uso de qualquer máquina, em qualquer atividade; puxa daqui, cutuca ali, lambe de lá, estica do outro lado, enfia acolá, enfim, nada mais era segredo, para o melhor e o pior. Era, isto sim, a questão eterna de sentimentos além da razão, das ciências e crenças, dos instintos e das probabilidades. Das possibilidades, ainda que num tempo permissivo e caótico onde qualquer doidice tinha defensores. Não era o caso, agora.

Tudo contra: era boêmio e briguento, imprevidente e irresponsável, mulherengo e cachaceiro, abusado e, complicando o cenário, poeta... O desgraçado escrevia feito um deus, brincava com palavras desconsideradamente, rápido feito um bombeiro em frases nas quais o que parecia não era, e o que era não parecia. Difícil, lidar com um homem sempre metido em entrelinhas e que arrastava, na vida, baú de histórias terríveis e sublimes, de vitórias e derrotas incredibilíssimas, de sedução e confronto com um batalhão de mulheres.

As conhecera, quase todas. Quase todas dedicaram-lhe velado ciúme imemorial e instintivo, sem que jamais, aparentemente, algo houvesse feito para merecê-lo. Talvez, só a simples existência justificasse, de menina a mulher sempre tímida, recolhida, recatada e indisponível, ao contrário delas, sempre de caráter e atitudes fortes, apaixonadas e beligerantes. Fora amado, o mandrana feioso e aventureiro... Vem-lhe ao palco, subitamente, a clássica obra Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, século XVII. Busca na Internet.

Cyrano é um herói romântico, que combate a covardia, a estupidez e a mentira”, calcado na vida de escritor boêmio e espadachim com mais de mil duelos. Ele ama sua prima, Roxane, que fruía ao ser cortejada com palavras bonitas e originais, e sofre profundamente por achar-se feio e indigno do amor da moça. Só ao morrer ele, em seus braços, descobre que o amara, sim, uma vida inteira, até através de outros. Suspira fundo, olhos marejados. Clássicas lagrimitas de terna tristeza correm pelas arestas do pentágono do riso e da dor; sufoca um soluço.

Lê novamente a frase crítica do e-mail: “... amo você desde sempre, não importam razões, soube conviver minha vida com esse amor que me incinera, e quero que o mundo se foda! ”. Rebelara-se, no final. Sentiu-se leve, quase feliz, mesmo vaidosa. Seguiria especial além do tempo, para o finito e terno tranca-ruas, como desde a longinqua vez em que assustada, jamais se explicara, nele se roçara sensualmente e lhe cravara, mais que um olhar expectante, laços eternos de cumplicidade cada vez mais forte e transparente. Outra lagrimita, sob a sinfonia de um suspiro de cortar pedra.

Nesse imbróglio medieval, exaustivamente clássico, abre o e-mail de resposta e num lance, sem pensar ou refletir, escreve aleatória e manda, com um mísero e único beijo:

“Não te preocupes, amado meu: levarei tuas cinzas ao mar...”.

(img: leca99 - cartaz de cyrano de bergerac)

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